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quarta-feira, 16 de abril de 2008

Odontologia _ Luvas? Por quê? _ Biossegurança

Luvas? Por quê?



LUVAS? POR QUÊ?


Regina Basílio
Mestre em Semiologia – UNICASTELO – SP.
Assessora Revista da ABO Regional de Valença RJ.

Até poucas décadas atrás, as doenças infecciosas mais comuns no consultório eram: resfriados, gripes, sarampo, caxumba e, ocasionalmente, um quadro grave, como sífilis ou tuberculose. Mais tarde, outras doenças infecciosas apareceram, envolvendo não somente o CD como também, as demais pessoas de sua equipe. A biossegurança engatinhava e não havia nenhuma das atuais barreiras contra as infecções. Trabalhava-se em contato direto – literalmente – com o paciente. As luvas, quando usadas, tiravam a sensibilidade tátil, grudavam no material restaurador... Por isto, eram usadas somente diante de um procedimento crítico como em uma cirurgia. Sabe como é... Contato direto com sangue não era uma coisa desejável! As DST – principal preocupação - já estavam presentes, mas a anamnese, com uma história médica bem explorada, e o exame clínico ajudavam a discernir os pacientes com necessidade ou não do uso de uma maior proteção. Além do mais, havia uma terapêutica que podia ser utilizada com sucesso. Aí surgiu a AIDS. Uma doença nefasta, fatal! Apavorante! Como enfrentá-la? Iniciou-se uma conscientização de que os fluídos corporais, dentre eles, a saliva e o sangue, principalmente, podiam ser veículos transmissores do “bendito” HIV. Como qualquer outro agente patogênico, o vírus ao encontrar uma “porta de entrada” como um ferimento na epiderme, cairia na corrente sangüínea, contaminando um segundo hospedeiro. Para cortar este elo, barreiras foram sendo utilizadas e dentre elas, as luvas, os óculos, o jaleco, o gorro. Uma mudança de hábitos começava!
O que aconteceu? Numerosas teorias foram aventadas, mas aceita-se, de modo geral, que a evolução dos microorganismos contribuiu de maneira decisiva para a patogenicidade das doenças infecciosas. Os microorganismos reproduzem-se rapidamente, pulsando de vida. Novas formas aparecem nessa evolução. Mudanças radicais são necessárias na rotina do consultório (LIMA & ITO, [199-]).
O CD está exposto a uma grande variedade de microorganismos (cerca de 300 microorganismos diferentes), veiculados pelo sangue e pela saliva (LIMA & ITO, [199-], SERRA et al., 2000, GONÇALVES, 2002). É nesse ambiente que podem originar-se cadeias e rotas de contaminação, expandindo doenças infecto-contagiosas como a hepatite B, hepatite A, hepatite delta, herpes, AIDS e outras (LIMA & ITO, [199-]).
Segundo ROMERO, 1997, “é preciso conscientizar os profissionais sobre os métodos de infecção, ou, como ocorram as vias de transmissão. Não é o contato direto que o CD tem com o paciente, mas, a urgência em saber que o ar está contaminado e que os dentistas atam com procedimentos muito contaminantes, como a alta-rotação dos motores, produzindo aerossóis contaminados, que entram em contato direto com a saliva do paciente”. Desse modo, é imperioso que o controle da infecção no consultório mude também radicalmente (LIMA & ITO, [199-]).
Contudo, há profissionais que não adotam m programa de CI (Controle de Infecção), alegando que nenhum paciente ou profissional de saúde contraiu ma infecção grave ou fatal em seu ambiente de trabalho. A percepção e os meios de que dispõem não são suficientes e confiáveis para lhes dar a exata noção do risco que correm e a que submetem outras pessoas (não só pacientes, mas também familiares) durante suas ações diárias. Isto decorre do fato de algumas doenças infecto-contagiosas, com risco de transmissão ocupacional, terem um período de incubação longo, o que dificulta aos profissionais de saúde e enfermos o estabelecimento de uma relação de causa-efeito (TEIXEIRA & SANTOS, 1999).

AS LUVAS
A luva se constitui na melhor barreira mecânica para as mãos. Funcionando como uma barreira primária, tem por finalidade a proteção do profissional e de seus pacientes, quando forem tocar em sangue, saliva, mucosas e tecidos (RAMOS, 1999, LIMA & ITO, [199-], TEIXEIRA & SANTOS, 1999).
Devido a sua importância, recomenda-se que os profissionais a usem rotineiramente para todos os procedimentos, sejam eles clínicos ou cirúrgicos. Elas devem ser usadas mesmo num simples exame na cavidade bucal (CERRI & SILVA, 1995, LIMA & ITO, [199-]).
Existem no comércio vários tipos de luvas para as diversas finalidades a que se destinam (MEDIDAS... ). As luvas de procedimento, não-estéreis, usadas em procedimentos semicríticos, onde não há a invasão do sistema vascular, como na prótese dentária, dentística restauradora, radiologia, entre outras. São de vinil ou látex e descartáveis. As estéreis são usadas em procedimentos críticos, como nos atos cirúrgicos ou naqueles onde o risco de contaminação seja crítico. São de látex. As luvas para procedimentos gerais são fabricadas de borracha grossa e estão indicadas para a limpeza, remoção de lixo contaminado (CERRI & SILVA, 1995, RAMOS, 1999).
Segundo MEDIDAS ... , as luvas cirúrgicas estéreis são confeccionadas com um látex de melhor qualidade e oferecem boa adaptação. As descartáveis de látex oferecem boa adaptação. As descartáveis de vinil não oferecem boa adaptação, sendo utilizadas em procedimentos como exame clínico, remoção de sutura.
Há ainda as luvas de PVC, usadas como uma segunda luva para manipular objetos fora do campo de trabalho como atender telefone, fazer algumas anotações (MEDIDAS ... ) .
Por último temos as luvas para limpeza geral. São de borracha grossa, usadas para serviços de limpeza e descontaminação de equipamentos e superfícies. São reutilizáveis se não estiverem furadas ou rasgadas. Devem ser descontaminadas após o uso (MEDIDAS ... ).
As luvas de látex – para procedimentos e estéreis – devem ser trocadas após cada paciente. Usar a mesma luva para atender a vários pacientes não é recomendado. O uso contínuo das luvas acaba por criar um ambiente propício para a proliferação de microorganismos sob o látex (GONÇALVES, 2002). Segundo pesquisas realizadas por MAGRO-FILHO et al., 2000, demonstraram que uso de luvas após uma hora levou ao aumento de amostras nas quais havia um número incontável de colônias bacterianas.
Não se deve nunca tentar desinfetar as luvas por imersão em meios químicos. Quando estiverem sujas de sangue ou outros fluídos orgânicos, elas deverão ser descartadas como lixo contaminado (LIMA & ITO, [199-], RAMOS, 1999).
As normas publicadas em 1988 em The Brith Dental Association aconselham, com base em evidências, que só se lavem as mãos enluvadas, entre atendimentos dos pacientes, com produtos químicos apropriados, e desde que não tenham ocorrido furos ou não tenham sido contaminadas por sangue. Nos EUA, contudo, os guias de CI no consultório, aconselham sempre um novo par de luvas a cada paciente (LIMA & ITO, [199-]).
Em pacientes de risco ou alto risco, as luvas devem ser estéreis e duplas (LIMA & ITO, [199-], RAMOS, 1999). Entretanto, segundo KOHN et al., 2004, não há nenhuma recomendação no Guidelines for Infection Control in Dental Health-Care Settings . 2003, liberado pelos Centers for Disease Control and Prevention – CDC, sobre a eficácia do uso de dois pares de luvas para prevenir a transmissão de doenças durante os procedimentos cirúrgicos bucais.
Uma vez vestidas as luvas, haverá um só caminho a seguir: a boca do paciente. Com as luvas só se pode tocar objetos descartáveis, desinfetados, estéreis e, caso haja necessidade de tocar alguma superfície sem barreira – telefone, gavetas – deve-se utilizar sobreluvas (luvas maiores ou sacos plásticos retangulares de alta densidade, com o dobro do tamanho da mão, luvas de PVC) (LIMA & ITO, [199-], TEIXEIRA & SANTOS, 1999, MEDIDAS ... ).
CERRI & SILVA 1995, mencionam que normalmente as luvas são apresentadas no mercado já com talco para facilitar sua colocação. Para os alérgicos, existem as luvas sem talco que devem ser colocadas com a aplicação de óleo de silicone a 10%. Há também a alergia ao próprio látex (DIDÁRIO JR., 1999).
É importante ressaltar que as luvas devem se adaptar perfeitamente às mãos do profissional (CERRI & SILVA, 1995, GONÇALVES, 2002). Apesar da importância da luva, muitos profissionais não a utilizam rotineiramente. RAMOS, 1999, chama a atenção para a existência da possibilidade, durante um procedimento invasivo, do acúmulo de sangue embaixo das unhas por um tempo que pode ser superior a 5 dias, quando da não utilização das luvas. ROURKE, 1997, relata que antes do uso das luvas se tornar uma prática de rotina, as taxas de marcadores de sangue mostraram níveis de exposição ao vírus da hepatite B, entre 5 a 10 vezes maiores para os CDs do que para o público em geral.
Há que se ressaltar que o uso de luvas, não prescinde uma boa lavagem de mãos e que o uso daquelas se restringe ao ambiente das clínicas (MEDIDAS... ).

CONSIDERAÇÕES FINAIS:
Não só o CD, mas todos os profissionais de saúde, em especial aqueles com mais de 10 anos de formado, que iniciaram na profissão em uma época em que pacientes com gripes, resfriados eram os mais comuns no consultório, numa época em que a avaliação clínica completa de história clínica e exame clínico propriamente dito, davam todos os pormenores para se analisar o paciente (“quem via cara via coração”) precisam se conscientizar de que hoje isto não é mais possível. Muitas vezes, ao próprio paciente desconhece ser portador de alguma enfermidade ou, até a esconde do profissional por mera ignorância. No início, as luvas eram realmente incômodas. O material grudava, os dedos ficavam sobrando e por aí vai... Hoje, entretanto, as luvas evoluíram e, como diz o ditado “o hábito faz o monge”, aqui também o uso faz o hábito.
O uso das luvas não protege só o profissional envolvido no contato direto com o paciente, mas também todos que estão envolvidos direta ou indiretamente com ele. Já imaginou pegar uma fruta com a mesma mão que esteve em contato com uma boca que têm inúmeros microorganismos só esperando para infectarem outro hospedeiro? AH! Mas eu lavo as mãos!... Sim. Mas as pesquisas mostram que não só a lavagem das mãos elimina toda a microbiota envolvida. Tanto que o uso de luvas não prescinde a lavagem das mãos e vice-versa.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. CERRI, A., SILVA, E.X.R. Infecções cruzadas. O C.D. tem obrigação de conhecer e divulgar normas preventivas. Assoc Paul Cir Dent J, São Paulo, p.34-37, ago.1995.
2. DIDÁRIO JR., W. Cuidados com a pele. Rev Assoc Paul Cir Dent, São Paulo, v.53, n.3, p.189, maio./jun.1999.
3. GONÇALVES, C.T. Controle de infecções. Qual é a sua rotina para evitar infecções cruzadas? Arquivo Dental Gaúcho-SEAP, p.18-23, 2002.
4. LIMA, S.N.M., ITO, I.I. Infecções odontogênicas. O controle de infecções no consultório odontológico. Sistema BEDA de controle. [s.n.t.]. [199-] (apostila propaganda).
5. KOHN W.G., HARTE, J. A., MALVITZ, D.M. et.al Normas de procedimento oara o controle de infecção nos locais de tratamento odontológico-2003. J Am Dent Assoc (Brasil), v.7, jan./fev. 2004.
6. MEDIDAS de precaução universal. [artigo científico]. Disponível em: <http://www.reitoria.ufsc.br/cga/luvas.htm>. Acesso em: 02/02/2005
7. MAGRO-FILHO, O., RANGEL-GARCIA JR., I., MORAIS-SOUZA, A. M. et al. Lavagem das mãos com soluções de PVP-I, clorexedina e sabão líquido: estudo microbiológico. Rev Assoc Paul Cir Dent, São Paulo, v.53, n.3, p.177-189, maio./jun.1999.
8. RAMOS, N. Manual de biossegrança. Fundação Educacional D. André Arcoverde. Centro de Ensino Superior de Valença. Faculdade de Odontologia de Valença. p.10-13, 1999.
9. ROMERO, M. A questão da biossegurança: antes de tudo, um problema de conscientização. Assoc Paul Cir Dent J, São Paulo, p.10-11, nov.1997.
10. SERRA, M.C., GARCIA, P.P.N.S., HENRIQUES, C. et al. Medidas de proteção utilizadas por cirurgiões-dentistas para o controle da infecção cruzada no consultório odontológico. Robrac, v.9, n.28, p.39, 2000.
11. TEIXEIRA, M., SANTOS, M.V. Responsabilidade no controle de infecção. Rev Assoc Paul Cir Dent, São Paulo, v.53, n.3, p.177-189, maio./jun.1999.




Data de Publicação do Artigo:

8 de Agosto de 2005

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