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quarta-feira, 19 de março de 2008

Vesperata _Diamantina_MG _ Cultura

ORIGENS DA VESPERATA


Antônio Carlos Fernandes
Wander Conceição


Durante o século XVIII as Irmandades contribuíram, sobremaneira, para o reconhecimento e a manutenção da música como um ofício consolidado e seguro para o músico setecentista na Capitania das Minas Gerais. Esse mesmo processo foi similar no Arraial do Tijuco. Cada instituição religiosa criada promovia uma festa dedicada ao dia do seu santo de devoção. Além dessas festas e suas procissões, o calendário litúrgico vasto completava-se com ladainhas, novenas, alvoradas, terços, tríduos, trezenas, retiros e missas cantadas. Em todas essas ocasiões, encomendavam-se músicas aos mestres de ofício.
Sustentado por uma vigorosa economia mineradora, diamantífera e aurífera, um ambiente musical intenso e poderoso desenvolveu-se no Arraial. Nesse contexto, destacou-se o músico José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita, mulato que viveu no Tijuco por mais de vinte anos e foi contratado pela Ordem Terceira do Monte do Carmo, em julho de 1789, ao preço de 50 oitavas de ouro anuais. Sua obra foi descoberta e divulgada na Europa pelo pesquisador alemão Francisco Curt Lange, na década de 1950. A elegância melódica, textura harmônica e técnica de orquestração da obra de Lobo de Mesquita levaram-no ao posto de mais importante músico contemporâneo das Américas no século XVIII, comparável apenas aos grandes mestres europeus. A criação de um Bispado em Diamantina, em meados do século XIX, com conseqüente eleição de um bispo, aprofundou a ação do clero regular na cidade, impondo limites ao livre funcionamento das Irmandades, subordinadas agora às normas de conduta determinadas por aquela instituição. Diamantina, já emancipada desde 1838, testemunhou sua Câmara Municipal editar um Código de Posturas Municipais, que tinha por objetivo disciplinar seu ordenamento urbano de então. O advento dessas novas relações no domínio da esfera pública e a criação do Bispado foram fatores determinantes para o esvaziamento nas funções e no cotidiano das Irmandades, diminuindo sua capacidade financeira de continuar oferecendo estabilidade e segurança ao ofício de músico no antigo Tijuco.
Essa situação acelerou o amadorismo que cercou o músico diamantinense ao longo dos séculos XIX e XX. Cabe, entretanto, esclarecer que a musicalidade da cidade não foi ofuscada, exatamente porque seu passado musical, riquíssimo, permaneceu como legado às gerações futuras. Exemplo da preservação dessa qualidade musical pode ser ilustrado com o Maestro Francisco Nunes Junior, diamantinense que fundou a Orquestra Sinfônica do Rio de Janeiro em 1922 e o Conservatório Mineiro de Música em 1924.
A cidade ainda cultiva, nos dias atuais, a paixão pelo piano, instrumento presente e vivo no cotidiano das famílias. Diamantina possui um número expressivo de músicos hábeis que primam pelo bom gosto e executam o fino do Jazz, do Fox, do Bolero, da Valsa, da Bossa Nova, do Samba, do Chorinho, da Serenata.
Entre os diversos lugares sociais ocupados pelos músicos, como conseqüência do amadorismo que se estabeleceu, as bandas de música criadas no século XIX em Diamantina exerceram papel fundamental para a preservação da musicalidade tijuquense, ao absorverem inúmeros deles, principalmente, porque assumiram a responsabilidade de funcionar como uma escola para capacitação do músico aprendiz. A execução de retretas era prática comum às bandas naquele tempo, atividade por meio da qual exerciam a função social de concorrer para a educação artística da população. A Banda do, então, 4º Corpo Militar em Diamantina, criada em 1891, manteve a tradição de desempenhar essa função. Quando João Batista de Macedo, o Maestro Piruruca, foi regente da Banda Militar, introduziu uma inovação durante suas retretas, que eram executadas no coreto que existia na praça em frente ao atual prédio da Prefeitura de Diamantina.
Uma música específica possuía uma linha de composição que o inspirou a destacar os blocos de solistas nas sacadas e janelas dos casarões da antiga praça, para executá-la. Sua partitura foi localizada no arquivo da Banda de Música do 3º Batalhão da Polícia Militar, em Diamantina; e no arquivo da Sociedade Musical Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em Ouro Preto. O nome registrado nos manuscritos encontrados é italiano: “La Mezza Notte”, autoria de M. D. Carline. Essa música é uma fantasia, cuja melodia sugere uma situação bastante parecida com um sistema de pergunta e resposta, como se os músicos estivessem praticando uma provocação musical, com destaque, sobretudo, para os trompetes, trombones e bombardinos. A atitude do Maestro Piruruca, em destacar os solistas nas sacadas, foi proporcionada pela melodia dessa música.
A disposição peculiar dos músicos, separados em blocos pelos sobrados da cidade, foi sendo repassada entre os maestros que assumiam a regência da Banda Militar. A partir da década de 1940, porém, a tradição foi perdendo o seu glamour, até se desvanecer, em função do processo de modernização da cidade, com a inauguração de novas possibilidades de entretenimento e lazer. Além desse fator, é importante salientar que a Banda Militar, gradativamente, terminou por se tornar responsável pela música que se executava durante as festas mais expressivas das inúmeras cidades que compõem sua área de jurisdição, ausentando-se de Diamantina sistematicamente.
Com a tradução do nome da música para o português, “Meia Noite”, ao que tudo indica, a população diamantinense vinculou o fascínio exercido pela execução da música, aos imperativos dos cânticos de louvor em regozijo ao Senhor, em seu sentido celestial e angelical. O anjo é o ser espiritual que exerce o ofício de mensageiro entre Deus e os homens. Conforme a tradição, o evento passou a ser denominado O Anjo da Meia Noite, com a população chegando mesmo a confundir essa denominação com o título da música, “La Mezza Notte”.
Essa questão de consciência de época – da preocupação com a salvação da alma, da procura da esfera celeste, da antítese entre luz e sombra, da preferência pelas horas crepusculares, da referência às figuras bíblicas e divindades da mitologia grega, da estrela guia que direciona o poeta errante, da referência da música (considerada a mais sublime das artes) como veículo de aproximação com Deus – é herança do romantismo e já estava caracterizada na obra de Castro Alves, notadamente em sua poesia “Os Anjos da Meia Noite”, datada de 1870, do livro Espumas Flutuantes. É importante se destacar, portanto, que no contexto das apresentações das bandas de música em Diamantina, não houve execução de peça musical intitulada “O Anjo da Meia Noite”, como já se afirmou em outras situações.
Enfim, o nome Vesperata é uma adaptação do termo vésperas, da mesma forma que das matinas eclesiásticas – que antecediam habitualmente as missas das almas – adaptou-se o termo matinada. Que das serenas – canção trovadoresca – adaptou-se o termo serenata, que a partir da Itália, influenciou a Corte Portuguesa. Esse mesmo processo cognitivo ocorreu com o termo cantata de natal, canção religiosa originada do vilancico ibérico. Analogamente, ocorreu com o termo funçanata, variante de funçanada, para nomear, no Brasil, a função – solenidade festiva, encontro musical alegre e extrovertido.
Vale aqui observar que o Monsenhor Walter Almeida, Major Capelão da Polícia Militar, foi um dos componentes da Comissão Diamantina Patrimônio da Humanidade, empossada em 1997. Seus conhecimentos sobre a história de Diamantina, principalmente da Igreja Católica e da Polícia Militar, balizaram o equilíbrio e a clareza do caminho a ser escolhido pela Comissão, para a montagem do dossiê que seria enviado à UNESCO. Entre as diversas observações históricas oferecidas, o Monsenhor Walter destacou aquelas relativas às reuniões musicais vespertinas no seio das famílias diamantinenses, originadas na tradição inglesa de se tomar chá aos finais de tarde. Em relação à sobreposição dos inúmeros sons que a cidade, melodicamente, emitia naquele momento, o Monsenhor Walter Almeida afirmava que as tardes em Diamantina eram verdadeiras “tardes vesperais”. Utilizava o termo vesperal com o sentido de espetáculo, de concerto.
O retorno dos músicos às janelas e sacadas dos velhos casarões foi sugerido como atrativo que Diamantina poderia apresentar como substância de sua alma musical. Acrescente-se a essa informação o fato de que a iluminação pública elétrica só ocorreu em Diamantina no ano de 1910. Apesar das ruas da cidade já serem iluminadas por lampiões em época anterior ao advento da luz elétrica, havia uma preferência pela luz crepuscular em que as retretas constituíam-se como parte integrante do contexto das “tardes vesperais” diamantinenses em 1895, ano de falecimento do maestro Piruruca.

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